Viajando para a Índia sozinha: dicas para mulheres aventureiras

Muitas pessoas me perguntam como é viajar pra Índia sozinha. Neste post, juntei algumas dicas e informações interessantes para quem tem vontade ou planeja se aventurar em uma viagem deste tipo, contando um pouco da minha história e algumas experiências que vivi.

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Sempre amei viajar. No começo de 2016, minha vida passou por um momento conturbado – eu estava depressiva, sem rumo, insatisfeita com meu trabalho e vida pessoal. Depois de sofrer (mais) uma desilusão amorosa, finalmente tomei coragem para sair do emprego que eu detestava e ser a protagonista da minha própria transformação, me presenteando com uma viagem solo. Eu não sabia ao certo o que fazer da vida e queria me aprofundar mais no universo do Yoga e do autoconhecimento, o que fez eu me interessar pela Índia.

O que me levou a escolher a Índia, inicialmente, foi a vontade de aprender mais sobre Yoga – eu já dava aulas na época –, o baixo custo dos cursos de treinamento de professores, a longa distância, a curiosidade e a ousadia de visitar um país longínquo e supostamente perigoso para mulheres.

A Índia, assim como o Brasil, é um país de contrastes. Há muita pobreza, poluição e cenas de horror. Mas também tem suas incontáveis riquezas, a beleza de sua gente lutadora que trabalha duro para sobreviver, seus patrimônios naturais e culturais encantadores e sua história fascinante.

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Munnar, Kerala

Quanto custa viajar pra Índia?

O que mais me perguntam é quanto se gasta em uma viagem à Índia e se é seguro. Antes de qualquer coisa, explico que meu estilo de viagem é low budget, ou seja, baixo orçamento. Somente o necessário e nada extraordinário. Costumo contar muito com a generosidade das pessoas, faço amizade com os locais e normalmente consigo acomodação e alimentação na base da troca: Couchsurfing, Workaway, casa de amigos e tudo que for possível para minimizar gastos. Isso significa oferecer aos seus anfitriões o que você tem de talentos ou algo que sabe fazer: pode ser uma habilidade, um serviço ou até mesmo uma boa conversa de troca de ideias e experiências.

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Ensinando Acroyoga para meu anfitrião Azaf, do Couchsurfing, na praia de Varkala

Quanto vai gastar em uma viagem dessas depende de você. No geral, viajar pra Ásia é barato. Se quer hotel de luxo e restaurante chique, lógico que vai gastar bem mais. Mas se, como eu, você se contenta com o simples, dorme em qualquer canto e curte se desafiar em situações fora da sua zona de conforto, dá para gastar pouquinho. O mais caro é a passagem aérea, por isso é bom ir e passar um tempo razoável. As duas vezes que fui à Índia fiquei 2 meses e se pudesse teria ficado mais.

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Parede do quarto no hostel Shiva Garden, Varkala

É perigoso para mulheres?

Obviamente, se pretende uma viagem econômica, os riscos são maiores pois você acaba se expondo mais e se envolvendo mais com outras pessoas, que nem sempre tem boas intenções. Já vivi situações ruins mas as experiências positivas foram predominantes. De qualquer forma, saí sã e salva e todas as experiências me ensinaram e fortaleceram, e sobrevivi para contar as histórias. Tudo valeu a pena e me deixou mais esperta e preparada!

De todo jeito, eu nasci mulher em um mundo onde o patriarcado reina. No meu próprio país natal a mulher ainda é muito objetificada, discriminada e desrespeitada. A meu ver, há muito sensacionalismo com relação à Índia e ao perigo para mulheres. Com base no que vi e vivi, apesar dos recorrentes olhares excessivos e intimidadores, não fui maltratada de nenhuma maneira absurda ou muito diferente do que já fui no Brasil. Pelo contrário, me senti poderosa e imponente, temida e respeitada. Tem guichês e filas exclusivas para mulheres, assentos para mulheres nos transportes públicos e linha telefônica de ajuda para mulheres 24/7.

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Ônibus local em Goa

Com relação às vestimentas, sim, é necessário prestar atenção no que você vai vestir, pois há fortes tradições religiosas em alguns lugares e se você colocar uma roupa que exponha muito o corpo, vai receber olhares desnecessários e não será legal. Tudo vai depender de qual lugar você quer visitar e de como você se posiciona, da sua atitude, de como você se porta e com quem se relaciona.

Estupros acontecem em todo lugar e, estatisticamente, o índice de estupros na Índia é comparável à dos EUA e da Suécia, cuja população é bem menor (fonte) . Ou seja, a situação está grave no mundo todo, basta você dar uma pesquisada nos índices de estupro em diversos países considerados desenvolvidos. O assédio e violência contra a mulher são problemas mundiais e não pontuais.

Precisa saber falar inglês?

Bem, é extremamente importante ser capaz de se comunicar corretamente em língua estrangeira quando você viaja sozinha. Aprenda o básico do inglês ou tenha sempre um tradutor em mãos. Na Índia, Hindi e Inglês são os principais idiomas a nível nacional.

Comunicação: telefone e internet

Por questões de segurança e praticidade, no aeroporto mesmo você pode adquirir um Sym Card (chip) para seu celular, com acesso à internet e telefone. Ter um número indiano vai facilitar muito a sua vida e te dar mais autonomia. Com internet, use e abuse do Google Maps, Couchsurfing, Trip Advisor, Uber, Ola e redes sociais. São jeitos fáceis de descobrir o que há de bom acontecendo onde você está e fazer amigos. Use a internet para consultar sobre transporte, agendamento de passagens, acomodação, restaurantes e atrações locais.

Não confie nas informações que te passam

Pergunte ao menos a 3 pessoas diferentes caso você tenha alguma dúvida sobre qualquer coisa. Desconfie sempre! Nem por maldade, às vezes as pessoas falam besteira convictas de que estão certas e isso pode atrasar ou prejudicar sua viagem. Não tenha vergonha de perguntar!

Que tipo de roupa usar?

O conselho que posso dar é: vista-se de maneira condizente ao local que você está visitando. Respeite as tradições, elas existem há muito mais tempo que você! Há lugares na Índia onde você pode usar roupas ocidentais e mostrar o corpo, mas também há muitos outros onde é melhor você usar roupas que cubram os ombros, joelhos e até mesmo os cabelos. Usando o bom senso, você se protege e se poupa de situações desagradáveis.

Tenha um lenço ou encharpe sempre em mãos. São leves e multiuso: te protegem da poeira, sol ou vento, te esquentam no frio e escondem o seu corpo nos momentos que você se sentir muito exposta.

As roupas lá são bem baratas, então leve poucas coisas na bagagem para ter espaço suficiente para comprar novas roupinhas indianas.

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Look mais conservador em Hampi, Karnataka
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Biquini brasileiro em Goa

Barganhar é uma arte

Negocie preços nas lojinhas e nos transportes, principalmente tuktuks. Qualquer que seja o valor que te oferecerem, ofereça metade ou menos. Mas use o bom senso, pois tem lugares onde dá pra negociar desconto e lugares onde o valor dos produtos é fixo. Você vai saber! É questão de prática, com o tempo fui me aprimorando na arte de barganhar e conseguia as coisas por menos de um terço do valor oferecido inicialmente. Só que você tem que estar familiarizada com o jeitinho indiano e ter noção de quanto vale aquilo que quer comprar.

Esteja preparada para um possível piriri

Leve em sua bagagem ou saiba comprar remédios para intoxicação alimentar, infecção urinária, gastroenterite e afins. Pode acontecer de você ficar doente, então esteja preparada e munida de medicação apropriada.

Também é útil ter colírio e soro nasal (ou seu neti pot, caso esteja acostumada com a prática), pois os olhos e nariz podem ficar ressecados e sensíveis devido ao vento, poeira e poluição em algumas cidades.

Nas duas vezes que fui tive intoxicação alimentar. Não se assustem, pois foi um pouco culpa minha; sou bastante descuidada às vezes. Não lavava as mãos com a frequência que deveria e comia em qualquer restaurante, com as mãos sujas, além de beber água de fontes duvidosas. Se você tomar cuidado e selecionar bem os lugares onde come, beber somente água mineral e passar álcool gel nas mãos sempre, não terá de sofrer o que eu sofri.

Ande com os nativos

Faça amizade com os locais! O povo indiano é bem acolhedor com os estrangeiros e reconhece a importância econômica do turismo. Fique amiga dos locais e saiba dos melhores lugares para ir, menos visitados e mais tranquilos, descubra as formas de transporte mais baratas e vivencie o dia a dia deles. É um jeito interessante e diferente de experienciar sua estadia. Tenho vários amigos indianos e amo!

Marina e Maharnav
Com meu amigo Maharnav, em Jaipur, Rajastão

Comporte-se como a mulher forte e independente que você é

Seja firme. Tenha segurança do que faz, não se mostre vulnerável, se misture à cultura do local mas leve com você a malícia brasileira. Ao andar na rua, levante a cabeça, não se esconda, não tenha medo de mandar tirarem as mãos de você (caso alguém encoste e você não goste), não hesite em defender seu território e dizer não. Às vezes é bom ser ríspida, pois se você é muito boazinha e sorridente, vão abusar da sua boa vontade. Eu sou naturalmente curta e direta, portanto qualquer um que se aproxime demais ou invada meu espaço, já logo corto. Pode parecer radical mas acredite, viajando sozinha quem cuida de você é você mesma, então cuide-se bem e seja ligeira!

Dinheiro ou cartão, o que levar?

A moeda nacional da Índia é rúpia indiana (INR). Você pode optar por levar dólar ou euro em espécie e trocar lá, estando atenta às taxas de conversão. Se preferir, leve seu cartão internacional, pois tem ATM em todo lugar para realizar suas transações. Consulte as taxas do seu banco e estude o que é melhor para você. Pode ser arriscado ficar andando com dinheiro em espécie, te poupa de algumas taxas do banco mas você precisa calcular bem o quanto levar e tomar muito cuidado para não perder. Cartão é mais seguro! Eu normalmente levo o dinheiro que pretendo gastar e um cartão para emergências.

A comida é muito apimentada?

Eu adoro a comida indiana, mas sim, a comida tradicional é bem apimentada. Mesmo. Você pode pedir pouca ou nenhuma pimenta, mas quase sempre vem um pouco ardente. No entanto, não se desespere, pois nos locais mais turísticos há diversas opções culinárias e é fácil evitar a comida apimentada demais. Só fique atenta se frequentar restaurantes menos populares e mais locais.

Experimente novo paladares!

Se você quer aproveitar ao máximo sua experiência na Índia, se entregue aos prazeres culinários. Experimente o Thali da região onde você está, prato indiano que traz um mix das comidas típicas locais.

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Special Maakhan Bog Thali em Jaipur (restaurante local, 130 rúpias)

Veg Pulao e Biryani são tipos de arroz deliciosos e condimentados, com vegetais, paneer (queijo cottage) e às vezes cogumelos. As masalas também são uma explosão de sabores: chana masala (ervilha), mushroom masala (cogumelo), paneer masala (queijo) etc. Malai Kofta (bolinhos de batata ao molho de castanha de caju), Vegetable Korma (vegetais ao molho cremoso), Palak Paneer (queijo cottage ao molho de espinafre), Masala Dosa (pão típico do sul da Índia) e Garlic naan (pão tandori com alho) também são pratos que estão entre os meus favoritos. O pão mais barato e comum de encontrar é o Chapati (roti), que eu já comi tanto que acabei enjoando.

Caso queira comer animais, nos centros urbanos ou locais de turismo você encontra carne e frango facilmente. Nas regiões costeiras há bastante oferta de frutos do mar. E – pasmem! – tem várias coisas na Índia que são bem parecidas com o Brasil. Caldo de cana, pé de moleque, brigadeiro, chips de banana, milho verde, doce de leite…

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Caldo de cana (10 rúpias)

As rotas que fiz

2018: Fiquei mais pelo Sul mas também passei pelo Norte, pois cheguei e parti por Nova Delhi. O roteiro foi: Delhi -> Kochi -> Varkala -> Trivandrum -> Kochi -> Munnar -> Mysore -> Hampi -> Goa -> Delhi -> Jaipur -> Delhi.

2016: Somente Norte: Delhi -> Rishikesh -> Dehradun -> Musoorie -> Dehradun -> Chandigarh -> Kasol -> Pulga -> Kasol -> Haridwar -> Rishikesh -> Delhi -> Agra -> Delhi.

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Neyyar Dam, Kerala
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Couchsurfing na Floresta Nacional, Kerala
Mussoorie
Mussoorie, Uttarakhand
Rishikesh
Beatles Ashram, Rishikesh, Uttarakhand

Qual visto tirar?

Se quer ficar até 60 dias para turismo, você pode aplicar para o E-Visa aqui. Caso pretenda ficar mais ou trabalhar, será necessário ir ao Consulado ou à Embaixada e levar a documentação requerida, conforme consta nos sites. Leia atentamente as informações contidas nos sites e veja qual tipo de visto é adequado para a sua viagem.

Algumas curiosidades sobre a Índia

  • Mais de 700 dialetos são falados na Índia, sendo 23 idiomas oficiais.
  • É ilegal revelar o sexo do feto em todo o país. Algumas famílias não querem mulheres.
  • As religiões predominantes na Índia são: hinduísmo, islamismo, catolicismo, budismo e sikhismo.
  • Os indianos adoram estrangeiros! E eles acham que todo mundo que é branco, é rico! Que ilusão, né? hahaha
  • Para dizer “obrigada”: dhanyawad ou shukriya.

Um pouquinho do que a Índia me ensinou

A primeira viagem à Índia foi um divisor de águas em minha vida. Fui sem saber o que esperar, sem conhecer ninguém, com pouco dinheiro e poucos planos. Alguns me desencorajaram a viajar sozinha para um país tão distante e exótico, mas felizmente acreditei no meu sonho e pude provar a mim mesma que sou capaz de enfrentar perrengues piores do que eu imaginava, sem perder o entusiasmo e a fé. Fiz amigos maravilhosos e vivi o Yoga de uma forma que eu desconhecia. Aprendi a confiar em mim mesma e acessar poderes que eu nem sabia que tinha.

Já na segunda vez, estava mais madura e preparada. Como a vida no Brasil estava fluindo muito bem antes de eu partir, senti muita saudade de casa, dos meus gatos, do Pole Dance e dos amigos. Vivi momentos imersa em solidão e autoanálise, questionando a decisão de ter ido viajar e deixado tudo para trás. Porém, a dúvida logo era sanada e tudo voltava a fazer sentido. Eu precisava estar ali e viver tudo aquilo para novamente ressignificar minha existência.

A paisagem oscila entre maravilhas e horrores. Vi cenários que pareciam um sonho, mas vi também cenas dignas de um pesadelo. De toda forma, nem só de beleza é feita a vida. Às vezes é preciso enxergar alguns horrores para valorizar as pequenas coisas belas do dia a dia. A gente reclama de barriga cheia e esquece de agradecer os privilégios que tem, simplesmente porque não os reconhece. Então é importante sair da zona de conforto e enfrentar o mundo cão, para ampliar a visão, ter parâmetros mais reais e repensar quando for reclamar da vida.

Depois da chuva vem o arco-íris, depois do choro vem o riso, depois da dor vem a gratidão. A vida não é toda florida e há muito sofrimento no mundo. A gente tem que ser firme e não se impressionar, aprender sem ficar chocado, absorver as lições sem traumatizar.

Um breve resumo da minha história: eu precisei ir para o outro lado do mundo conhecer o medo, a insegurança, a incerteza, o desconforto e a dificuldade para dar o devido valor às pessoas, ao amor, às boas companhias, ao café da manhã da casa da minha mãe, à roupa de cama cheirosa, ao chuveiro de água quente, à privada limpinha do banheiro, entre outras coisas que a gente tem e nem sabe que é luxo.

Agradeço por todas as experiências vividas na Índia e certamente retornarei. Por enquanto, compartilho com vocês um pouco sobre esse país intrigante. Futuramente escreverei sobre os lugares que conheci, com dicas mais pontuais. Caso alguém tenha outras dúvidas que não foram respondidas aqui, fique à vontade para entrar em contato comigo.

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Praticando Yoga em Patnem, Goa, onde fiz 1 mês de Workaway

Um comentário em “Viajando para a Índia sozinha: dicas para mulheres aventureiras

  1. Que máximo a sua viagem! Estou indo sozinha pra Índia em novembro, você poderia me indicar onde eu poderia me hospedar em Délhi e um guia que falasse português.
    Abçs

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